domingo, 22 de agosto de 2010

Redenção

O despertar de uma nova consciência é algo doloroso. Pelo menos para ele, ser desprovido de visão mais plena. Meticuloso, desconfiava constantemente dos que estavam a sua volta, no cerne, o medo de ser superado. Caminhava vagamente pelas veredas com medo de encontrar ser errante na estrada longa que acompanhava. Por onde vagueava predominava um breu que dificultava um peregrinar mais sereno. Apenas uma luz semelhante a um lampião brilhava ao fundo. Essa concedia uma mínima noção da trilha turva pelo qual o peregrino seguia. Nas escassas vezes que tinha coragem de observar a paisagem ao lado, surpreendia-se com tanta beleza. Contudo, não se sentia capaz de trilhar por tal caminho, o pensamento de estar descoberto o amedrontava. Sabia que ao lado predominava uma lei universal pelo qual os andarilhos deveriam acatar: o descortinar de suas vestes. Passou-se algum tempo e o eremita caminhava só em relevo irregular. Algo em seu pensamento, porém, se transformou. A solidão tornava-o fraco. Sentia que não mais agüentaria carregar o fardo de seus sentimentos sórdidos. Parou, e fez um movimento raro em sua peregrinação, observou a luz que iluminava ao fundo. Imaginava que ela era diferente do caminho que o amedrontava, pois estava em direção que, pelo menos em sua concepção espacial, diferia da trilha que margeava. Decidiu se aproximar. O caminho tornou-se mais árido, começou a atravessar diversas intempéries. O frio, antes predominante, desvaneceu. Passou a predominar calor quase insuportável. Sentiu sede. Andava munido apenas de arma branca afiada, conhecida em alguns lugares por peixeira, terçado, ou simplesmente facão. A luz tornou-se mais forte, avistou no horizonte mandacarus. Pensou, eis minha única chance. Sabia que esta espécie acumulava água e que poderia saciar parte de sua sede com o líquido extraído. Realizou o trabalho, sem antes ter a pela cortada pelos espinhos característicos da vegetação. Sentiu forças para prosseguir. Adentrou em um terreno desértico, a luz intensa não o deixava observar o horizonte. Caminhava com dificuldades e sentia suas forças se esvaírem. Sabia que não havia mais retorno, ou caia e tornava-se parte daquele deserto, ou prosseguia. Resistiu. Ao um dado momento a luz intensa diminuiu e concentrou-se em um ponto a certa distância. Teve forças para olhar. Aquela luz começou a demonstrar colorações diversas, das mais belas que até então vira. Com as derradeiras energias, prosseguiu. Passou-se algum tempo e eis que o peregrino avistou seu objetivo. Uma rosa púrpura destacava sua plenitude dentre aquele relevo desértico. Dela emergia aquele brilho que avistava ao longe. Prostrou-se diante dela e chorou. Sentiu o peso dos anos que peregrinou a ermo evaporar por seu corpo. Ainda ajoelhado e com os olhos baixos despiu-se de grande parte de suas vestes, elas não mais eram necessárias. Ao levantar os olhos uma surpresa. Encontrava-se em meio ao caminho antes indesejado. Contudo, sentiu imensa alegria de estar ali e renovadas forças para prosseguir. Sabia que carregaria agora vestes moldadas por história de reconhecimento e transformação, o descortinar seria menos oneroso e sentia coragem para realizar tal empreendimento. Ao antes eremita aproximou-se uma bela andarilha, não sentiu medo, contou sua história e construiu com ela um primeiro laço. Sabia que era apenas o primeiro ato de uma grande jornada que não mais temia seguir.

Um comentário:

  1. A rosa e o eremita

    "O despertar de uma nova consciência é algo doloroso." Incrível como as palavras 'despertar' e 'doloroso' se encaixam tão bem nesta frase. Como me parece tão natural que dor seja necessária para firmar na pele o que a mente, por vezes, demora a compreender. Mas o que posso eu falar de despertar?! O que há vidas esteve tão desperto em mim, hoje conta com o tempo para seu florecimento. Processo doloroso, como o da larva que luta contra seu próprio casulo para se transformar em borboleta.

    Tempo, senhor de todos os ritmos; somente ele é capaz de alivar as dores dos calos do eremita. Ele fecha as feridas, e traz consigo o despertar da primavera. Plena das mais belas cores, a primavera carrega o desbrochar do botão. Cauteloso botão! espera ansioso pelo orvalho da manhã. Espera com paciência, pois a terra árida do sertão o castiga.

    Mas o botão está sempre lá, esperando a hora de sentir suas pétalas livres. E quando já desabrocada; a rosa púrpura que recebe as lágrimas do eremita cala e faz dela as lágrimas dele, sente o peso de seu coração, toca suas feridas - são tantas. A rosa vendo aquele homem postado em sua frente entende os dias de sol a pino, ela almeja livrar o eremita do peso que este carregou atravessando a terra seca a qual escolheu trilhar.

    Mas ela sabe que cada um trilha o caminho que escolhe para si, e se enche de felicidade por ver o eremita chegar até alí. Ela sempre esteve por perto, os raios do sol que ao bater na cor púpura de suas pétalas clareavam o caminho a seguir. Agora a rosa e o eremita, os dois esperam que no caminho à frente não existam mais espinhos.

    A rosa olha para o céu e roga com todas as forças ao compositor de destinos para que chuva lave as feridas e assim o sol raie. Em meio as suas preces ela vislumbra o destino do eremita, sente em suas folhas o passar das primaveras e vê do homem se aproximar uma bela andarilha - que de coração aberto se põe a caminhar ao seu lado. Tudo isso se passa numa fração de segundos, como um sonho que se sonha acordado.

    A rosa vendo que o eremita continuava de olhos baixos lhe sussura ao pé do ouvido. "Fé!" Ele sabia do que ela falava, ele sabia que ela continuaria a clariar o seu caminho; pois a rosa é SEMPRE a rosa.

    [Seguir com fé eu vou que fé não costuma falhar!]

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